quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A LENDA DA GUERRA.

                    Quando o primeiro Pastor de almas elevou-se da Terra, no carro da morte, o Senhor esperou-o no Trono de Justiça e Misericórdia, de modo a ouvir-lhe o relatório alusivo às ovelhas do mundo. 

                   Nos céus aves felizes entoavam cânticos à paz, enquanto Serafins tangiam harmoniosas Cítaras ao longe... Tudo era esperança e júbilo no Paraíso; no entanto, o Pastor que fora, também no Planeta terrestre o primeiro homem bom, trazia consigo dolorosa expressão de amargura.
                 Os cabelos brancos caiam-lhe em desalinho; seus pés e mãos tinham marcas sangrentas e de seus olhos fluíam lágrimas abundantes.
                 O Todo poderoso recebeu-o surpreendido.
                 O ancião inclinou-se, reverente; saudou-O, respeitoso, mantendo-se em profundo silêncio. As interrogações Paternais, explodiam afetuosas.
                Como seguia o rebanho da Terra? Observa-se o regulamento da Natureza? Atendia-se ao caminho traçado? Havia suficiente respeito na vida de todos? Muita compreensão no serviço individual? Conforme o desdobramento dos negócios terrestres, abriria novos horizontes ao progresso dos homens. O dever bem vivido conferiria mais extenso direito às criaturas?
             O velhinho contudo ouvia e chorava.
             Mais austeramente inquirido, respondeu soluçando: Ai de mim Senhor! As ovelhas que me confiastes, segundo me parece, trazem corações de animais cruéis. A maioria tem gestos de Lobos, algumas revelam a dureza do Tigre e outras a peçonha de Víboras ingratas. Gritos de admiração partiam de todos os lados.
           De fisionomia severa, embora serena, o Senhor perguntou: 
          - Não tem as ovelhas as dádivas do corpo para o sublime aprendizado na escola terrestre? 
         - Sim - suspirou o ancião; mas desprezam-no e insultam-no, todos os dias, através do relaxamento e da viciação.
        - Não possuem a casa, o ninho doce que lhes dei?
       - Mas fazem do campo doméstico verdadeiro reduto de hostilidades cordiais, no qual combatem mutuamente, a distância do entendimento e do perdão.
      - Não guardam a benção do parentesco entre si?
      - Transformam os elos consanguíneos em telas grossas de egoismo, dentro das quais se encanecem.
     - E os filhos? Não  conservam o sorriso das crianças?
     - Convertem as ovelhinhas em pequenos demônios de vaidade, que perturbam todo rebanho no curso do tempo.
    - A Pátria? Não lhes concedi o grande lar para a expansão coletiva?
   - Cristalizam a ideia de Pátria em absurdo propósito de dominação, espalhando em seu nome a miséria e a morte.
  - E o amor? Determinei que o amor lhes constituísse sagrada lâmpada no caminho da vida.
 - Perfeitamente - prosseguiu o Pastor, desalentado; entretanto, o amor para eles representa máquina de gozar na esfera física; quando levemente contrariados em seus jogos de ilusão, odeiam e ferem.
- A verdade? Tornou o Senhor compassivo.
- Somente acreditam nela e aceitam-na, se os seus interesses imediatos, mesmo quando criminosos, não são prejudicados.
- E não te ouvem os ensinos, inspirados por meu Coração?
- O velhinho sorriu pela primeira vez,  em meio da infinita amargura a lhe transparecer do rosto, e acentuou:
- De modo algum! Recebem-me  com indisfarçável sarcasmo. Preferem aprender em queda espetacular no despenhadeiro, que ouvir minha voz.
- Mas não combinam entre si, quanto aos interesses de todos?
- Não. Muita vez se mordem uns aos outros.
- Não estabelecem acordos pacíficos com os vizinhos?
- Intensificam as discórdias, atiram pedras ao próximo e o crime costuma ser o Juiz de suas disputas.
- Todavia - continuou o Misericordioso; e a Natureza que os cerca? Porventura, não lhes falam ao coração a claridade do Sol, a benção do ar, a bondade da água, a carícia do vento, a cooperação dos animais, a proteção dos arvoredos, o perfume das flores, a sabedoria da semente e a dádiva dos frutos?
- Infelizmente  - esclareceu o ancião - vagueiam como cegos e surdos, ante o concerto harmonioso de vossas graças e oprimem a Natureza simbolizando gênios do mal, destruidores e despóticos.
- E a morte?- indagou o Altíssimo - não temem a Justiça do fim?
- Parecem ignorá-la; peregrinaram na Crosta do Planeta como Duendes loucos, embriagados de ilusão, indiferentes ao vosso Amor, endurecidos para com vossa orientação, despreocupados de vossa justiça...
             Nesse momento, o Senhor Todo Poderoso mostrou-se igualmente entristecido. Após meditar alguns instantes, falou ao Pastor em pranto:
- Não chores, nem te desespere; volta a Terra e retoma o seu trabalho. Outros companheiros contribuirão em seu ministério, encaminhando, corrigindo, refazendo e amando em meu nome. Alguém, contudo, estará presente no mundo, colaborando contigo e com os demais, para que minhas ovelhas infelizes compreendam a estrada do aprisco pela dor.
          Em seguida, cumprindo ordens Divinas, alguns Anjos desceram aos infernos e libertaram perigoso monstro sem olhos e sem ouvidos, mas com milhões de garras e bocas.
          Foi então que, desde esse dia, o monstro cego e surdo da guerra acompanha o Pastor do bem, a fim de exterminar, em tormentas de suor e lágrimas, tudo o que na Terra, constituía obra da vaidade e orgulho, egoismo e tirania dos homens, contrários aos sublimes desígnios de Deus. 
             
Ditado pelo Espírito: Irmão X.
Psicografado pelo médium:

Francisco Cândido Xavier.
             
Muita Paz.
              

            
                 

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